Não sou nada especial; disso estou certa. Sou uma mulher comum, com pensamentos comuns e vivi uma vida comum. Não há monumentos dedicados a mim e o meu nome, em breve, será esquecido, mas amei outra pessoa com toda a minha alma e coração e, para mim, isso sempre bastou.
--Nicholas Sparks--
Entre 1979 e 1984, o novaiorquino Richard Avedon (1923-2004) contratou a fotógrafa americana Laura Wilson como assistente e viajou por 13 estados e 189 cidades do Texas a Idaho, no Oeste dos Estados Unidos. Ao todo foram mais de 700 sessões retratando diferentes pessoas, onde ele usou nada menos que 17.000 chapas de filme 8X10" em sua câmera Deardorff.
O resultado dessa epopeia fotográfica contemporânea foi a publicação do clássico In The American West (Thames & Hudson, 1985), exposições em diferentes lugares como o Amon Carter Museum of Contemporary Art, em Fort Worth, no Texas ou a Pace Gallery de Nova York. Anos mais tarde Laura Wilson publicou Avedon at Work (Texas Press University, 2003), mostrando seu diário de 6 anos, seu tour de force.
Richard Avedon ajudou a redefinir a fotografia fashion já no início dos anos 1940 levando a moda para as ruas de Nova York, que incluia modelos famosas como Dorian Leigh (1917-2008) e Dorothy Virginia Margaret Juba (1927-1990), mais conhecida como Dovima e mais tarde a inglesa Twiggy e a alemã Veruschka, ícones dos anos 1960. Igualmente, seus retratos deram outro status a este meio fotográfico na América com personagens como a atriz Marilyn Monroe (1926-1962), o escritor James Baldwin (1924-1987) com quem fez o livro Nothing Personal (Atheneum,1964) outro marco dos livros de fotografia e até mesmo a banda The Beatles entre outros importantes músicos.
A ideia do livro veio de Mitchell A. Wilder (1913-1979) então diretor do Amon Carter Museum, queestabeleceu na entidade uma vasta coleção de fotografias sobre o Oeste americano com cerca de 300 mil cópias. Em 1978 ele viu um retrato de um rancheiro feito por Avedon em Ennis Mont e comissionou o mesmo para continuar fotografando a região. Melhor ainda, o fotógrafo teria carta branca para fazer seus retratos como bem quisesse.
Em que pese a liberdade para o trabalho e a fama já adquirida por Avedon, certamente ele tinha que enfrentar grandes nomes que avançaram pelo registro etnográfico do Oeste americano. Fotógrafos consagrados do início do século XX como Edward Sheriff Curtis (1868- 1952) e seu impressionante trabalho com as etnias que compunham os nativos americanos, também fruto de um comissionamento em 1906, desta vez pelo banqueiro e colecionador de arte J.P.Morgan (1837-1914),que legou a história nada menos que 10 mil gravações em cilindros de cera com a linguagem e música indígenas e cerca de 40 mil fotografias de membros de mais 80 tribos.
Com atenção na parte rural, Avedon visitou fazendas e as festas nos rodeios, mas também foi para os estacionamentos de caminhoneiros, campos de extração de petróleo e abatedouros. Sabiamente se distanciou da paisagem monumental, gravada por fotógrafos como Timothy O'Sullivan (1840-1882), optando por não trabalhar com a amplitude do lugar, centralizando seu esforço nos indivíduos que a América não dava tanta importância, evitando assim os arquétipos já amplamente conhecidos, como os cowboys já esteticamente trabalhados na mitologia contemporânea pelo cinema ou pela arte estabelecida.
Em In the American West os personagens são a antítese de imagens míticas dos cowboys destemidos, das mulheres recatadas criadas pelos peregrinos e puritanos, do aventureiros em busca do ouro ou dos famosos magnatas germinados pela indústria petrolífera que compõem a grande suíte do imaginário da região. Ele trouxe de maneira straight pessoas comuns, amparadas apenas pela sua difícil existência e um fundo branco puro de papel onde ele podia colocá-lo diante de sua câmera de grande formato.
Impressionou tanto a crítica que quando a exposição veio para Nova York, reduzida em menos do que a metade depois de estreiar no Amon Carter Museum, o The New York Times estampou a manchete: “Avedon mostra o lado negro do Oeste” na edição de 15 de dezembro de 1985, com matéria escrita por Gene Thornton, que colocou o fotógrafo na “jovem geração” em oposição ao imaginário do Oeste criado por luminares como ocaliforniano Ansel Adams (1902-1984), que “compunham majestosas paisagens que expressavam a nobreza do espírito humano.”
Em sua análise, Thornton, autor de livros como Master of the camera: Stieglitz, Steichen & their successors (Ridge, 1976) compara o retrato de um trabalhador em uma mina de carvão, em grande escala, “como um hippie sem camisa, com o rosto deformado, mas sensível e uma expressão com alma e resignação.” a um dos autorretratos do fotógrafo e editor bostoniano Fred Holland Day (1864-1933) [ um dos primeiros a advogar a inclusão da fotografia no meio Fine Art] encarnando o Cristo crucificado. A imagem provocava ao crítico um sobressalto pelo quão estereotipada e desinformada podia ser a ideia de um mineiro além da dúvida de que o mesmo seria típico de seu mundo.
A ideia de um retrato fiel do nativo do Oeste americano é posta em discussão para o leitor. Há uma remissão também lógica aos retratos do alemão August Sander (1873-1962) e seus contemporâneos produzidos em série cuja primeira parte foi publicada em Antilizer der Zeit ( Kurt Wolf Werlager, 1929) [ O semblante da época] ,uma busca de um cruzamento da sociedade alemã através da categorização dos tipos sociais, que era dividida em seções como classes e profissões. Entretanto, a ideia de Avedon não foi produzir esse relato quase científico, ainda que as suas características nos encaminhem ao pensamento antropológico, suas fotografias divergem da objetividade impessoal vista no trabalho do alemão. Para o crítico, “o fotógrafo revela uma espécie de purgatório, se não o inferno, na Terra.”
A personalidade marcante de Richard Avedon foi conhecida pelo modo com que sempre lidou com seus retratados, resumida por ele como “Embaixo da pele não há nada”. Para aqueles que romanticamente ainda acham que retratar alguém é buscar a sua “alma” talvez isso possa assustar. Os retratos do livro raramente trazem sorrisos, assim como a maioria inclusa na sua obra mais ampla. Pelo contrário, ele cruelmente expõe o drama: “Depois que a sessão do retrato acaba, quando ele está feito, não há mais nada a não ser a fotografia. A fotografia e o constrangimento… Eles vão embora e eu não os conheço.”
Em sua antologia maior como An Autobiography Richard Avedon (Randon House, 1993) parte destes personagens, normalmente ignorados pelos grandes fotógrafos de celebridades, convivem junto e se assemelham à aquelas grandes figuras constituídas por políticos, poetas, atrizes, coreógrafos, escritores e super models. Certo também que, para Avedon, a fotografia nunca era verdade e sim ficção ou uma opinião do fotógrafo. Pensamento este corroborado no livro de sua assistente Laura Wilson, de que sua escolha era quase sempre subjetiva.
Laura Wilson em seu livro esclarece que certos detalhes em In the American West, não são exatamente como foram divulgados. Um dos mais importantes, são as famosas “instruções detalhadas” dadas por Avedon para os que cuidavam das impressões das suas imagens. Na verdade, segundo ela, suas anotações eram muito gerais e raramente eram marcadas por ele nos testes, como a prova do retrato do mineiro Lyal Burr, cujas marcas de dodging e burning ( proteção e exposição do papel fotográfico) estão anotadas em seu rosto todo com indicações precisas.
Segundo Ruedi Hoffman , gerente do estúdio de Avedon, as dificuldades consumiam muito tempo e começavam no quarto escuro, quando ele rejeitava as primeiras cópias menores no formato 40X50 cm por estarem muito contrastadas ou pelo preto intenso. Suas instruções, na verdade eram nada técnicas ao printer David Liittscwager: “ Deixe essa pessoa mais gentil” ou “Deixe seu rosto mais tenso.” Cabia a eles o entendimento do conteúdo emocional que o fotógrafo queria para suas imagens. Então Hoffman com um lápis dermatográfico vermelho, marcava a cópia de teste para os tempos de exposição, escurecimento ou clareamento, em detalhes como o queixo do retratado, sua testa ou até mesmo os cílios.
In the American West traz 140 páginas com imagens sangradas com o tradicional fio da borda do negativo de chapa rígida usado por Avedon, um prefácio em que descreve sua filosofia em retratar as pessoas e seu método de trabalho, além de um posfácio de sua assistente Laura Wilson como um diário das viagens entre 1979 e 1984. No miolo, estão mineiros que trabalham nas minas de carvão, moradores de rua, figuras que parecem desajustadas, presos, crianças ou doentes mentais. Um corolário que se distancia da sua vida fashion novaiorquina, estampado em um branco cru e sem as paisagens que tornaram o Oeste americano visível no cinema, na publicidade ou nas obras de grandes fotógrafos paisagistas.
Avedon resume seu livro: “É um Oeste ficcional. Eu não acho que estas imagens sejam mais conclusivas do que aquelas que estão nos filmes de John Wayne ou nas fotos de Edward Curtis.” Certamente os personagens escolhidos por ele normalmente não aparecem muito na mídia, mas são a maioria, disse um deles, o contador Ronald Fischer, que talvez seja a figura mais emblemática da publicação por sua peculiaridades: careca, sem blusa e coberto por abelhas.
Apicultor amador, Fischer foi recrutado pelo fotógrafo através de um anúncio no American Bee Journal e fotografado em Davis, California, posando conforme o desenho feito pelo fotógrafo anteriormente. No documentário Richard Avedon: Darkness and Light, dirigido em 1995 por Helen Withney, algumas das pessoas fotografadas como ele são revisitadas e dão suas opiniões sobre como foram retratados naquela época.
Assim como a crítica reagiu com ressalvas e elogios ao lançamento do livro e exposição, nem todos que posaram gostaram dos seus retratos. Afinal, poucos querem mudar a sua idéia sobre a América. Foi assim também com Les Américains ( Ed. Delpire, 1958) do suíço Robert Frank ou com o trabalho de Walker Evans (1903-1975) para a Farm Security Administration (FSA) nos anos 1930 durante a Depressão. Os retratos derrubam sem pena o tal “the american way of life” criado no século XVIII na crença dos direitos à vida, liberdade e a busca da felicidade.
Entretanto, alguns até mesmos disseram ter a vida transformada, como o cowboy que estava em depressão e melhorou, enquanto alguns levantaram até mesmo o autoritarismo de Avedon no controle da sessão de fotografias. Qualquer que seja o depoimento, ninguém passa ileso por essa coletânea, nem mesmo aqueles que não tem afinidade com a região ou com seu modo de vida. Certamente muitos deles ficarão gravados na memória de quem perder alguns minutos olhando para as imagens. É isso que importa a Avedon. Como ele mesmo falou, depois disso não há mais nada a não ser a fotografia.